quarta-feira, 26 de março de 2025

#1

Perdi a conta de quantas vezes a ansiedade me fez companhia enquanto aguardava o sono chegar.

"O dinheiro está lá, mas é pouco. Certamente não dará até o final do mês. Ou será que dá? É melhor eu dar um jeito de ganhar mais grana. Urgente!"

Com isso em mente, meu corpo imóvel, que até agora pouco só queria um pouco de descanso, permanece tenso. Quase sinto o turbilhão de preocupações se manifestar em minha frente, feito um espectro sombrio pairando sobre meu presente e assombrando o futuro. Há tempos meu descanso se transformou em um campo de batalha interno, onde cada respiração parece carregar o peso da inércia.

A mente é afiada. Tem inúmeras ideias e planos de como sair desse labirinto de angústias. 

"Eu só preciso de duzentos reais a mais essa semana e vai dar tudo certo."

Só que o outro dia chega e, no exato momento de dar o primeiro passo, de transformar a fantasia em ação concreta, uma barreira invisível se ergue. Sou tomado por uma vergonha inexplicável, paralisante. Como se cada tentativa de movimento representasse um ato de exposição indesejada, um grito silencioso tão grande de vulnerabilidade que prefiro mantê-lo abafado.

À medida em que a frustração da inação se acumula, o desespero aumenta. A distância entre o desejo e a realidade, que inicialmente soava plausível de superar, vai se tornando um abismo aparentemente intransponível. O ânimo se esvai, a energia se dissipa e a busca por um escape imediato se torna uma tentação quase irresistível. Só a névoa efêmera que obscurece a nitidez dos problemas parece fazer sentido diante do desconsolo. E assim os atos que clamam por urgência são adiados para um futuro incerto.

"Amanhã eu penso melhor sobre isso"

É assim que o ciclo se perpetua. Angústia, medo, vergonha, frustração e tristeza. Reconheço essa dança sombria, sinto-me capaz de articular os sentimentos e me revolto com a passividade com que encaro essa prisão interna. 

Pra quem lê, sei que pode ser duro chegar à conclusão de um texto tão desesperançoso. Mas a vida segue. A gente se levanta, se veste e continua tocando a vida. É pouco, mas é a única esperança de que um dia irei me acertar.